01 · ANTES DE EU SABER O NOME DISSO
Eu fui escolhida para cuidar antes de escolher cuidar.
Três vezes a vida me chamou. Eu tinha 11, 12 e 13 anos e não sabia o nome do que estava fazendo.
Eu sempre ouvi que a enfermagem é um chamado. Eu demorei pra entender o meu.
Eu tinha 11 anos quando um homem que estava cavando um poço no quintal da minha casa cortou o dedo. Ele gritava de dor e ninguém sabia o que fazer. Eu peguei o dedo dele e fiz um curativo com água oxigenada e uma faixa que nunca faltava lá em casa. O médico conseguiu salvar o dedo. Não precisou amputar.
Aos 12, uma vizinha chegou desesperada na minha porta com um bebê cianótico no colo e uma vela na mão, implorando pra eu batizar a criança porque achava que ela ia morrer. Eu virei o bebê de bruços e consegui desengasgar. Aquela vida continuou.
Aos 13, veio o maior desafio: minha mãe foi diagnosticada com uma cardiopatia grave, diabetes e hipertensão. Eu era só uma adolescente, mas era a única filha mulher — quem acompanhava as idas e vindas ao hospital, as internações longas, as duas cirurgias de coração e os cuidados em casa era eu.
Nada disso me pareceu um sinal na época. Eu só estava fazendo o que precisava ser feito.
Eu fui escolhida para cuidar.
