Pular para o conteúdo
Izabel Gonçalves Escola Enfermagem de ValorA Escola
Retrato de Izabel Gonçalves

IZABEL GONÇALVES · ENFERMAGEM DE ALTA COMPLEXIDADE E HOME CARE

Eu não nasci pronta. Eu aprendi a não deixar o medo decidir por mim.

Filha de um mecânico e de uma cabeleireira. Mãe de cinco filhos. Já trabalhei em mercado, pizzaria e loja de 1,99, já dirigi caminhão de madrugada e já comi arroz com açúcar na ceia de Natal. Hoje eu ensino enfermagem para milhares de mulheres — e nada disso começou numa sala de aula.

Role para começar

Antes de ensinar enfermagem, eu só estava tentando cuidar da minha família.

Eu não acordei um dia querendo ser professora. A vida me empurrou para o cuidado muito antes de eu ter um diploma para provar que eu sabia cuidar.

01 · ANTES DE EU SABER O NOME DISSO

Eu fui escolhida para cuidar antes de escolher cuidar.

Três vezes a vida me chamou. Eu tinha 11, 12 e 13 anos e não sabia o nome do que estava fazendo.

Eu sempre ouvi que a enfermagem é um chamado. Eu demorei pra entender o meu.

Eu tinha 11 anos quando um homem que estava cavando um poço no quintal da minha casa cortou o dedo. Ele gritava de dor e ninguém sabia o que fazer. Eu peguei o dedo dele e fiz um curativo com água oxigenada e uma faixa que nunca faltava lá em casa. O médico conseguiu salvar o dedo. Não precisou amputar.

Aos 12, uma vizinha chegou desesperada na minha porta com um bebê cianótico no colo e uma vela na mão, implorando pra eu batizar a criança porque achava que ela ia morrer. Eu virei o bebê de bruços e consegui desengasgar. Aquela vida continuou.

Aos 13, veio o maior desafio: minha mãe foi diagnosticada com uma cardiopatia grave, diabetes e hipertensão. Eu era só uma adolescente, mas era a única filha mulher — quem acompanhava as idas e vindas ao hospital, as internações longas, as duas cirurgias de coração e os cuidados em casa era eu.

Nada disso me pareceu um sinal na época. Eu só estava fazendo o que precisava ser feito.

Eu fui escolhida para cuidar.

02 · DE ONDE EU VENHO

Prosperidade, pra mim, começou sendo ter o que comer.

Numa cidade satélite de Brasília. Meu pai era mecânico, minha mãe, cabeleireira.

Eu vivi a pobreza mesmo. Tô falando de arroz cozido na água com açúcar puro na ceia de Natal. De farinha com açúcar no café, porque não tinha o que comer.

Eu cresci sonhando em cursar Direito, mas sabia que não seria fácil realizar. Ainda assim, nunca tive medo de trabalhar duro nem de pegar no pesado. Já trabalhei em mercado, em pizzaria, em lojinha de 1,99, em locadora de vídeo. Dei aula em autoescola. Já dirigi caminhão e guinchei carro nas ruas de madrugada.

Nenhum desses trabalhos me trouxe a realização que eu buscava. Mas todos me ensinaram a mesma coisa, e cedo: ninguém ia construir os meus sonhos por mim.

Eu ainda carrego uma coisa daquele tempo, e não é orgulho: é medo de faltar. Medo de faltar comida, aluguel, um sapato. Medo de não ter como dar para os meus filhos. Esse medo não me paralisou — ele me botou para correr.

Eu sempre disse que eu não ia viver o mínimo.
Izabel hoje. A menina de então não tinha foto — tinha turno.
Izabel hoje. A menina de então não tinha foto — tinha turno.

03 · A FILHA

Muito antes de querer ter mais, eu queria poder dar mais.

O maior sonho da minha mãe era ter uma casa que ela pudesse chamar de sua.

Todo esse esforço me permitiu realizar um dos maiores sonhos da minha vida: construir a casa própria da minha mãe. Era o sonho dela. Em 2010 ela finalmente pôde chamar aquele lar de seu.

Eu cuidei dela a vida inteira. Uma vez eu pedi para acompanhar a minha mãe numa internação, numa UTI, e me disseram que não podia. Eu falei: então tá bom, me demite. E saí do emprego. Nunca precisei pensar duas vezes numa escolha dessas.

No dia 29 de julho de 2020 eu descobri que a minha mãe estava com Covid. Não só ela: a família inteira, eu inclusive.

No dia 7 de agosto eu entrei numa ambulância a caminho de uma UTI. Dessa vez a UTI era a minha. Depois de uma vida inteira entrando em hospital atrás da minha mãe, eu estava do outro lado da cama, e não podia fazer nada por ninguém — nem por mim.

Minha mãe morreu na madrugada seguinte. Eu só soube três dias depois, deitada naquele leito. É a lembrança que mais arde em mim até hoje.

A dor de perder ficou. Mas ficou também a certeza que me conforta até hoje: enquanto eu pude, eu transformei trabalho em cuidado. Ela viu o sonho dela de pé.

Enquanto eu pude, eu transformei trabalho em cuidado.

04 · A MULHER QUE AINDA NÃO SABIA

Eu era só a Izabel.

Casada, mãe de cinco filhos, cheguei a cursar Direito, trabalhei muito — e não sabia quase nada de enfermagem.

Apesar de toda essa trajetória, e mesmo já tendo trabalhado num hospital, eu não enxergava a enfermagem como a minha missão.

E tem uma parte dessa fase que eu não gosto de contar, mas que é a mais importante de todas: em alguns momentos, por medo, eu me deixei paralisar. A minha vida tomou um curso bem difícil por causa disso. Bem difícil mesmo. Eu deixei outras pessoas decidirem por mim — e depois foi preciso muita força para sair.

Então, quando eu digo que o medo não manda mais em mim, não é frase bonita. É uma coisa que eu aprendi apanhando.

Eu era só a Izabel: casada, mãe de cinco filhos, que chegou a cursar Direito na faculdade e trabalhou muito. De enfermagem eu sabia fechar um soro e tirar um esparadrapo. E eu só aprendi a tirar esparadrapo direito porque uma vez uma técnica tirou o esparadrapo da minha mãe e arrancou a pele junto, por causa do edema. Foi ali que eu aprendi a fazer aquilo com humanização.

O que eu não podia imaginar é que quem ia me revelar a minha missão já morava na minha casa: minha sogra, que estava morando com a gente havia quase dois anos por causa das limitações físicas e da dependência. Eu cuidava dela sozinha, sem recurso, sem médico, sem entender nada de enfermagem.

Por medo, eu me deixei paralisar e a minha vida tomou um curso bem difícil.

05 · 2018

Foi em 2018 que eu entendi o meu chamado.

Três meses de UTI. Pneumonia, atelectasia, sepse. E um diagnóstico sem volta.

Minha sogra passou muito mal e foi internada. Ficou três meses entre UTI intensiva e semi-intensiva. Teve pneumonia, atelectasia e sepse — que é quando o corpo inteiro entra em falência reagindo a uma infecção. Muita gente não sobrevive a isso. Graças a Deus ela é uma dessas pessoas.

Foi naquela internação que veio uma das piores notícias da minha vida: o diagnóstico de uma doença neurodegenerativa progressiva, sem cura. Logo depois veio a alta, que foi maravilhosa. Só que era alta por home care.

Eu confesso que já tinha ouvido esse termo, mas naquele momento eu não conseguia nem lembrar o que era home care, muito menos que era internação domiciliar.

O plano de saúde disse pra mim e pro meu marido que ia resolver tudo. Que ia contratar uma empresa prestadora de serviço e que a gente ia ter tudo que precisasse: médico, fono, fisio, enfermeira, técnico de enfermagem 24 horas.

Ela voltou pra casa com traqueostomia, gastrostomia, ventilação mecânica e vários outros dispositivos pra sobreviver. E eu fiquei aliviada. Depois de dois anos cuidando dela sozinha, sem recurso e sem entender nada, eu pensei: com toda essa assistência, agora vai ser tranquilo.

Eu estava grata a Deus. E foi aí que veio a grande desilusão.

06 · SETE DIAS DEPOIS

A senhora confia em mim?

Minha sogra tinha sete dias em casa quando eu acordei com gritos no meio da noite.

“A cânula saiu! A cânula saiu! Eu matei ela, eu matei ela!”

Eu saí do meu quarto correndo, com o coração na boca. Quando cheguei lá, a técnica estava com as duas mãos na cabeça, em pânico, paralisada. Ela só conseguia dizer: “eu matei ela, me perdoa, não sei mexer com isso, não aprendi no curso técnico”.

Eu não entendia o que estava acontecendo, mas sabia que era grave. Olhei o oxímetro — que eu nem sabia o nome na época. A saturação da minha sogra estava em 19%. A frequência cardíaca, que costuma ficar em torno de 60, estava em 210. As veias saltadas. Ela estava roxa, cianótica.

E eu vi que aquela cânula, que devia estar dentro da traqueia, estava em cima do peito dela. Uma coisa eu sabia: ali não era o lugar dela.

Eu corri pra ajudar. Sem conhecimento nenhum, sem preparo, sem luva, sem desinsuflar o cuff — que eu nem sabia o que era nem pra que servia.

Peguei na mão dela e perguntei: “A senhora confia em mim?”

Ela apertou a minha mão com tanta força que me encheu de coragem.

Então eu fiz o que eu achei que devia fazer. E foi sangue pra todo lado.

A saturação subiu. A frequência baixou. Ela sobreviveu pra contar a história.

Eu sabia que, se aquela cânula não estivesse lá dentro pra ela respirar, ela morreria. Eu tinha ao menos que tentar.

07 · NÃO FOI UMA NOITE

Foram sete intercorrências graves em um mês.

Decanulação. Tração da gastrostomia. Broncoespasmo. Rolha. Aquilo virou rotina.

Teve outra vez em que uma técnica virou minha sogra traqueostomizada de bruços. De novo eu fui surpreendida por gritos e de novo encontrei aquela cena ao entrar no quarto.

Em apenas um mês, foram sete intercorrências graves. Qualquer uma delas, sozinha, poderia ter levado ela a óbito. É difícil até pra um médico explicar como ela sobreviveu a tantas.

E depois de tantas vezes eu entendi que aquilo não era coincidência. As técnicas que chegavam pra cuidar da minha sogra não estavam prontas. Na maioria das vezes em que uma delas chegava pra assumir o plantão, eu via o medo no rosto dela. A sensação de estar perdida. O desespero de não saber o que fazer.

E por quê? Porque o curso que elas fizeram — o mesmo que eu fiz, o que todas nós fizemos — é superficial e raso. Aula teórica, sem prática, sem contato real com os dispositivos. No estágio, que era pra colocar a mão na massa, ensinam a arrumar leito e dar banho, e não deixam a gente nem chegar perto de uma evolução de enfermagem.

E o pior: mesmo sem saber o que fazer, aquelas técnicas tinham que estar ali. Porque precisavam do emprego, precisavam sustentar os filhos, pagar aluguel, comer. Elas carregavam o peso de uma profissão que exige coragem e para a qual o sistema de ensino não preparou ninguém.

Eu faço questão de dizer uma coisa: a culpa não é delas. Nenhuma daquelas mulheres acordou querendo errar. Elas foram mandadas para dentro de um plantão de alta complexidade com um curso que não ensinou o que aquele plantão exigia. Se eu conto essa história é para acusar o ensino, nunca elas.

Eu não quero, nunca mais, ver uma técnica de enfermagem com as mãos na cabeça, desesperada, gritando porque não sabe o que fazer.

O medo virou estudo. O estudo virou domínio. O domínio virou método.

08 · A VIRADA

Eu fui fazer o curso que eu critico.

Ou eu assumia essa responsabilidade, ou eu ia perder a minha sogra.

Depois da última intercorrência eu falei: não dá mais. Eu preciso aprender a cuidar da minha sogra pra poder ensinar essas técnicas. Ou eu assumo essa responsabilidade, ou ela vai acabar morrendo a qualquer momento.

Aí eu fui. Fiz o curso técnico de enfermagem — sim, o mesmo curso que eu digo que é raso. Eu não critico o ensino técnico de fora, nem de cima: eu entrei, fiz, e vi por dentro onde ele falha.

E não parei ali. Fiz muitas especializações. Não perdia nenhuma oportunidade de aprender. Procurei gente mais experiente. Foram noites e noites em claro estudando. Investi muito dinheiro em curso. E o mais importante: aprendi com a prática — quase oito anos à frente de uma unidade de terapia intensiva.

Eu fiquei obcecada em aprender. Porque a única forma de mudar a minha realidade e a das outras técnicas era aprendendo tudo. Mas tudo mesmo.

O curso que elas fizeram, eu fiz, que nós fizemos, é superficial e raso.

09 · DO MEDO NASCEU UM MAPA

Eu chamei de GPS do Plantão Sem Medo.

Não para a técnica precisar ser corajosa como eu fui naquela madrugada. Para ela não precisar ser.

Aquele tsunami todo foi fazendo com que, a cada experiência e a cada intercorrência, eu fosse mapeando e construindo um guia definitivo.

Minha sogra teve praticamente todas as intercorrências que podem acontecer num plantão de alta complexidade. E ela está viva. Normalmente uma dessas já basta pra levar alguém a óbito — ela teve sete em um mês.

Foi disso que nasceu o que eu chamo de GPS do Plantão Sem Medo: um caminho pra que a técnica saiba o que fazer antes de a emergência chegar. Não pra ela precisar ser corajosa como eu fui naquela madrugada. Pra ela não precisar ser.

Ela emprestou a vida dela para que eu pudesse descobrir algo que pode salvar vidas.

10 · O QUE EU NÃO PLANEJEI SER

Eu estudei pra cuidar de uma pessoa. Descobri que precisava ensinar milhares.

Eu me tornei professora sem nunca ter imaginado isso.

Eu não comecei a estudar pra dar aula. Comecei pra minha sogra não morrer.

Só que, quando eu aprendi, eu não consegui mais fingir que aquilo era um problema só meu. Se aconteceu dentro da minha casa, com uma técnica que precisava daquele emprego pra sustentar os filhos dela, então está acontecendo em milhares de casas, clínicas e hospitais todos os dias.

Eu virei professora sem imaginar. Engraçado: eu tinha feito magistério lá atrás, e nunca tinha dado aula na vida. E hoje é o trabalho mais sério que eu já peguei — porque quem senta na minha aula vai encostar a mão numa pessoa depois.

Eu me tornei uma professora, algo que eu não esperava.
Da UTI domiciliar para a sala de aula.
Da UTI domiciliar para a sala de aula.

HOJE

Eu não faço isso por mim.

Tem uma técnica entrando num plantão agora, nesse minuto, com o coração acelerado, torcendo para nada sair do lugar. Talvez seja você. Eu já estive do outro lado daquela cama, olhando para alguém que não sabia o que fazer — e eu não desejo aquilo para ninguém.

Enquanto o sistema continuar formando profissional com o registro na mão e medo no peito, eu tenho trabalho. Não é sobre o meu nome, preciosa. É sobre quantas mãos eu consigo preparar antes da próxima madrugada.

E tem o preço, que eu não escondo: eu trabalho 12, 15 horas por dia. Tem dia que eu paro e me pergunto quanto tempo eu aguento nesse ritmo, e se eu não estou deixando de cuidar de mim justamente enquanto ensino todo mundo a cuidar dos outros. Essa é a única parte da minha história que eu ainda não resolvi.

No que eu acredito

Não é currículo. É o que eu levo comigo para dentro de cada sala de aula e de cada plantão.

Família não é negociável.

Prosperar, pra mim, nunca foi sobre luxo. É poder cuidar melhor de quem eu amo — e chegar a tempo.

O medo é bom. Ele só não pode te paralisar.

É a frase que eu diria para a Izabel adolescente, e é a que eu digo para você: o medo é amigo, ele sempre vai existir. Ele só não pode tomar conta, e não pode decidir por você.

Conhecimento é responsabilidade.

Quem cuida de uma vida precisa respeitar o peso disso. Aula rasa não é economia: é risco transferido para quem está na cama.

Fé não substitui ação.

Eu sirvo um Deus do impossível e digo isso sem constrangimento. Mas eu nunca esperei sentada: nas piores intercorrências eu orei pedindo orientação com as duas mãos ocupadas.

O que essa história virou

+5 mil

alunas fazem parte dessa história

O QUE NASCEU DISSO

Da missão nasceu a Escola Enfermagem de Valor.

O que começou dentro da minha casa virou escola. Não porque eu queria ter uma empresa: porque depois daquelas madrugadas eu não consegui mais ficar quieta sabendo o que eu sei.

Eu chamei de Enfermagem de Valor porque é isso que eu quero devolver para quem cuida. O valor de saber exatamente o que fazer quando a vida de alguém depende de você. E o valor que essa profissional merece receber por isso.

Se a minha história te trouxe até aqui, é lá que ela continua — em forma de aula.

Ainda passa o medo, aquela vozinha, o friozinho na barriga. Só que eu sou a pessoa que luta contra isso pra caralho. Hoje eu até me elogio: eu sou foda pra caralho.

Talvez a minha história seja sobre enfermagem. Mas, no fundo, ela sempre foi sobre não deixar o medo decidir o tamanho da nossa vida.

Izabel Gonçalves